01 Julho, 2009

QUANDO VOCÊ SE VAI




QUANDO VOCÊ SE VAI



© Silvana Duboc
08/06/2007

Quando você se vai
deixa uma saudade tão intensa
que minha alma pensa
que não vai aguentar,
meu coração tende a parar,
meu corpo se abandona em qualquer lugar.
Quando você se vai
fica faltando um pedaço meu
que há muito já é seu,
que dentro de você se escondeu.
Quando você se vai
as luzes da cidade se apagam,
os silêncios bradam,
os gritos calam,
os raios de sol desaparecem
e as estrelas se esquecem
que junto da lua devem ficar
para que ela não se sinta só
e desista de brilhar.
Quando você se vai tudo muda de lugar.
Até as batidas do meu coração
mudam de posição
e do lado direito do meu peito
disparam dando sinal de insatisfação.
Mas quando você se vai
tem, também, algo de muito bom.
Seja qual for o lugar
que você possa estar,
próximo ou distante de mim,
antes de ir você me diz assim;

Comigo eu a levarei!

E o que eu não sei
é como isso pode acontecer
pois você continua aqui comigo
mesmo sem perceber.

"O amor desconhece partidas e distâncias.
Quem vai leva uma parte considerável de quem fica e quem fica guarda um pedaço imensurável de quem se foi. Por isso, pra mim você não se foi e pra você eu não fiquei."

27 Junho, 2009

O TEU RISO




O teu riso


Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

© Pablo Neruda

(Presente da Mary/Ohio)

24 Junho, 2009

PENUMBRA


Espere...
Não entre na desordem deste quarto,
esparramei no chão meus sentimentos,
estou revendo a história de cada momento.
Cuidado!
Aqui estão os ais do meu passado...
Não pise nessas dores tão antigas,
Tão velhas, que já são minhas amigas.
Observe
todas as imagens desbotadas,
são meus momentos de decepção
lavados com o pranto de meu coração...
Descubra
pendurada naquela parede,
minha coleção de esperanças
desde os velhos tempos de criança...
Confira
aqueles momentos de incerteza,
os medos, pesadelos, titubeios,
coleção de meus tolos receios...
Admire...
Empilhei ali naquele canto
todas as vitórias conquistadas,
quando por mim fui superada!
Sorria,
Veja a coletânea de alegrias,
meu acervo da rara beleza...
A vida não tem sido só tristezas...
Não brinque!
Aqui eu guardo meus amores...
De todos, os mais fortes sentimentos.
Tremo ao relembrar cada momento!
Não ligue...
Ali deixei a miscelânea,
instantes... curtos, fortes, variados,
murais que só eu sei o significado...
Enfim...
Sente-se aqui perto de mim,
apague a nostalgia que me inunda
e veja à meia-luz desta penumbra,
flashes da aventura que deslumbra!

© Sylvia Cohin-Foto e poema
Bahia, Brasil

22 Junho, 2009

E-mail para NY


® Ivan Angelo

Queridíssima.

Aqui na terra estão jogando futebol, a coisa aqui tá preta e ainda é difícil segurar esse rojão. Melhor você ficar na sua nevasca; aqui, boiamos nas enchentes.

Novidades, temos muitas, mas nenhuma é nova de verdade. Estão discutindo outra vez a progressão da pena.
Sabe o que é? Se lembra, não? Essa expressão, brumosa para nós, é música para os bandidos e seus defensores.
Significa que um hediondo qualquer condenado a oitenta anos pode sair após cinco anos de cadeia. Significa que, depois de cumprir um sexto da internação máxima brasileira, de trinta anos, um desses caras que matam e queimam a vítima, ou estupram e matam, ou matam os pais a pauladas para apressar a herança, ou mutilam e matam, pode "progredir" para o regime semi-aberto. Usar a cadeia como hotel, só para dormir. Entendeu? Nessa camaradagem entre a Justiça e o crime, podem entrar condenados a noventa, 120, 200 anos. Para parar com isso, bastava sabe o quê? Uma emendazinha. Fazer a pena "progredir" após um sexto da condenação: os sentenciados a noventa anos só teriam a moleza após quinze trancados; a 120 anos, após vinte de sol quadrado; a 200, após 33,3.

Essa discussão, queridíssima, ressurgiu porque uns aloprados arrastaram uma criança pendurada num carro por 7 quilômetros. Você deve ter visto na TV daí. Deu no mundo inteiro. Viu os caras? Classe média baixa de subúrbio, moços, esbeltos, barrigas de tanquinho. Um, menor, foi mostrado com aquela mancha embaçando a cara, como sempre. Não querem que a gente reconheça o garoto que vai nos assaltar na esquina no mês que vem.

Nas esquinas, você nunca sabe quem vem lá, se um malabarista, um assaltante, um cachaceiro ou um pedinte sem habilidade para show com bolinhas. Agora os malabaristas levantam a camisa e giram na frente dos carros, para mostrar que não estão armados. Pequenos grupos pedintes se instalam pelas esquinas de todos os bairros, de todas as cidades: crianças no sol, mães na sombra, bebês nos peitos. A população, condoída, ajuda. É o grande programa social nacional: o Bolsa-Esquina.

Turistas agora estão fazendo tour em favela. Continuam a ser assaltados, mas fora de lá. Gentileza local. Chegaram antes do Carnaval, viram umas peladonas rebolando, adolescentes fazendo programa, pegaram um sol, umas caipirinhas e fizeram um tour guiado pela Rocinha. É, de jipão aberto: "Pessoal, olhaí o pitoresco povo brasileiro, alá o Cristo Redentor, ó a Lagoa que linda, ó Ipanema!" Turista tem essa coisa esquisita: gosta de belezas e de horrores. Tem turismo em Bagdá, acredita?

Bom, depois das festas, vamos ver se o país começa a andar. Sei não. Lembra que numa carta de quatro anos atrás eu falava com esperança no Congresso que se instalava? Pois é: foi dos piores. Não caio noutra. Lembra que eu falava que não entendia como é que alguém podia querer ser presidente, governador, prefeito, com tanto pepino? Eles passam, os pepinos ficam. Nosso prefeito mal começou e já se destemperou. Lembra-se da Marta, do Covas, do Jânio? Destemperados.
Sou mais o mineiro Milton Campos. Queriam que ele, governador, mandasse o trem militar para acabar com a greve dos ferroviários, que estavam com o salário atrasado havia meses. E ele: "Não seria melhor mandarmos o trem pagador?"

Olha, aquele casal de amigos de vocês que foi passar os feriados aí chegou, não é? Você ligou preocupada. Foi só um atraso, certeza. É culpa de Congonhas. Por causa da lâmina d'água na pista, ele fica interditado e espalha o caos por outros aeroportos. Aqui, agora, o aeroporto, além de ter teto, vai ter de dar pé.

Beijos, queridíssima. Se preocupe não: sobreviveremos.

17 Junho, 2009

AMANDO-SE


Uma senhora fazia feira há mais de 20 anos pensando nas coisas fresquinhas que iria levar para o marido, para o filho mais velho, para o filho do meio, para a caçulinha. Um dia ela foi surpreendida pela pergunta do feirante: E para a senhora, o que vai levar? Ela foi até em casa pensando nos jilós que há muitos anos não comprava, apesar de adorar, ela nunca comprava o danado do jiló pois ninguém em sua casa gostava. Nesse dia ela chegou em casa e voltou correndo para a feira e comprou um monte de jiló fresquinho, e preparou com gosto como se fosse para uma rainha, e comeu com mais gosto ainda, sentindo-se a própria rainha.

Quantos jilós deixamos de comer para agradar essa ou aquela pessoa. Quantas coisas boas deixamos para trás em nome do amor. Quantos sapos engolimos, e as vezes, até humilhações sofremos calados. Tudo em nome do amor. Sei lá que raio de amor é esse, amor de peixe podre, quando mexe fede, quando frita faz mal.

Tenho andado pelas ruas e continuo vendo as pessoas de olhar baixo, olhos cansados, semblante pesado, parece que as pessoas estão esperando algo acontecer para serem felizes. Ouço muitos suspiros, as pessoas afirmam que se tivessem mais dinheiro, seriam felizes, se tivessem alguém para amar seriam felizes, se tivessem um emprego seriam felizes. De outro lado, vejo pessoas com muito dinheiro com muito medo de perder o que conquistou, com medo de sair na rua, com medo de seqüestro, tomando "sono em caixinhas". Vejo casais brigando por cada besteira, ciúmes, paranóias, desgaste de relações, filhos abandonados, incompreensão. Gente empregada reclamando do chefe, do salário, do lugar, da cadeira, dos amigos da mesa ao lado...

E, o tempo passando, escorrendo como areia fina pelos dedos, as oportunidades passam na nossa vida e nem damos bolas, estamos ocupados demais em atender a esse ou aquele pedido dos outros, estamos nervosos demais na reclamação, na angústia, na incompreensão dos outros. Continuamos colocando sonhos malucos em nossa cabeça sem avisar as partes interessadas. Por fim, não acreditamos que a felicidade está na nossa porta, que esta dentro de nós agora, que podemos comer jiló quando quisermos, que podemos não querer jiló nessa hora. Que somos donos do nosso nariz, que se quebrarmos a cara em uma tentativa qualquer, somos nós que temos que nos levantarmos, tirar o aprendizado da experiência e tocar o barco.

Olha, a sua vida é um barquinho, sua vontade são os remos, os desafios são os rios turbulentos. Para avançar seu barquinho e alcançar um porto seguro (ser feliz) é preciso gostar de seu barquinho, cuidar dele com carinho. Imagine se o seu barco estiver com o casco furado? Você não vai chegar em lugar nenhum. Por isso, repito sempre aqui, cuide primeiro do seu barquinho (sua vida), quando ele estiver forte, bonito e preparado para vencer os rios, você poderá rebocar todos os que estiverem "perdidos pelo caminho".

Ah! e se você tiver vontade de comer jiló, vá a feira, escolha os mais bonitos e coma até se lambuzar.

**Hàmlid**

14 Junho, 2009

O céu será aqui ...




O céu será aqui ...



Nenhuma estrela há de ficar impune,
recolherei suas escamas luminosas,
espalharei no meu corpo como pétalas de rosas,
desnudarei, enfim, meu coração ...
Eu provarei em ti a taça dos desejos,
serei a procissão festiva dos teus beijos,
e o céu será aqui :
meu corpo em tuas mãos.

© Mellíss

http://www.meninadalua.com.br

10 Junho, 2009

Lembranças ...


Quando se vive um grande amor
O tempo parece parar
E tudo a nossa volta fica pequeno
A nada podendo se comparar.

Quem me dera se eu pudesse
Apagar das minhas lembranças
Os grandes momentos que vivemos
Que não voltarão jamais.

O que fazer com a saudade
Que insiste em aumentar,
A cada dia que passa,
Não me deixando lhe esquecer?

Fico a imaginar a todo instante
Como será o amanhã
Pois não me sai da lembrança
Tudo o que sonhamos viver.

Tem horas que a saudade aperta
E faz o meu peito doer
Por não conseguir aceitar
Que não tenho mais você.

Tudo que vivemos e sonhamos, com certeza,
Não se repetirá com outro alguém
Pois tínhamos os nossos segredos
Que a ninguém jamais revelarei.

E agora envolvida nas Lembranças e Saudades
Como explicar para o meu coração
Que o mais difícil vai ser
Continuar vivendo só de Lembranças,
Sem Você ?

Criszinh@
Rio de Janeiro/RJ

(Presente e figura da Aurea Manchini)

08 Junho, 2009

Dentro de um abraço


**MARTHA MEDEIROS

Onde é que você gostaria de estar agora, neste exato momento? Fico pensando nos lugares paradisíacos onde já estive, e que não me custaria nada reprisar: num determinado restaurante de uma ilha grega, na beira de diversas praias do Brasil e do mundo, na casa de bons amigos, em algum vilarejo europeu, numa estrada bela e vazia, no meio de um show espetacular, numa sala de cinema vendo a estreia de um filme muito esperado, e principalmente, no meu quarto e na minha cama, que nenhum hotel cinco estrelas consegue superar a intimidade da gente é irreproduzível.

Posso também listar os lugares onde não gostaria de estar: num leito de hospital, numa fila de banco, numa reunião de condomínio, presa num elevador, em meio a um trânsito congestionado, numa cadeira de dentista.

E então? Somando os prós e os contras, as boas e más opções, onde, afinal, é o melhor lugar do mundo?

Dentro de um abraço.

Que lugar melhor para uma criança, para um idoso, para uma mulher apaixonada, para um adolescente com medo, para um doente, para alguém solitário? Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro. Dentro de um abraço não se ouve o tic-tac dos relógios e, se faltar luz, tanto melhor. Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço, se dissolve.

Que lugar melhor para um recém-nascido, para um recém-chegado, para um recém-demitido, para um recém-contratado? Dentro de um abraço nenhuma situação é incerta, o futuro não amedronta, estacionamos confortavelmente em meio ao paraíso.

O rosto contra o peito de quem te abraça, as batidas do coração dele e as suas, o silêncio que sempre se faz durante esse envolvimento físico: nada há para se reivindicar ou agradecer, dentro de um abraço voz nenhuma se faz necessária, está tudo dito.

Que lugar no mundo é melhor para se estar? Na frente de uma lareira com um livro estupendo, em meio a um estádio lotado vendo seu time golear, num almoço em família onde todos estão se divertindo, num final de tarde de frente para o mar, deitado num parque olhando para o céu, na cama com a pessoa que você mais ama?

Difícil bater essa última alternativa, mas onde começa o amor, senão dentro do primeiro abraço? Alguns o consideram como algo sufocante, querem logo se desvencilhar dele. Até entendo que há momentos em que é preciso estar fora de alcance, livre de qualquer tentáculo. Esse desejo de se manter solto é legítimo, mas hoje me permita não endossar manifestações de alforria. Entrando na semana dos namorados, recomendo fazer reserva num local aconchegante e naturalmente aquecido: dentro de um abraço que te baste.

(Presente de Cristina Brum - RS)


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05 Junho, 2009

Angústia no meu peito


**Renato Cardoso.

Me sinto angustiado
A necessidade que você me causa está me deixando assim
Meu desejo não sossega, meu pensamento não descansa
Meu coração me irrita
Mistura de raiva com amor
Raiva de escutar o que não merecia
Junto com o amor que sinto, incondicionalmente, por ti
Amor que queima meu corpo de desejo
Que tira do meu pensamento a paz
Que de prazer faz meus sentidos enlouquecerem
Seus lábios úmidos e quentes me arrepiam quando me tocam
Seu corpo, nem preciso falar, me deixa em êxtase completo
Essa necessidade de você está me matando
Corroendo minha alma, meus desejos
Nunca pensei que amar e querer alguém
Fosse tão intenso e necessário
Quanto eu amo e quero você.

(Presente da Áurea)

03 Junho, 2009

Bunda mole, é ?!


Belinha acordou às seis, arrumou as crianças, levou-as para o colégio e voltou para casa a tempo de dar um beijo burocrático em Artur, o marido, e de trocarem cheques, afazeres e reclamações.

Fez um supermercado rápido, brigou com a empregada que manchou seu vestido de seda, saiu como sempre apressada, levou uma multa por estar dirigindo com o celular
no ouvido e uma advertência por estacionar em lugar proibido, enquanto ia, por um minuto, ao caixa automático tirar dinheiro.

No caminho do trabalho batucava ansiedade no volante, num congestionamento monstro, e pensava quando teria tempo de fazer a unha e pintar o cabelo antes que se transformasse numa mulher grisalha.

Chegando ao escritório, foi quase atropelada por uma gata escultural que, segundo soube, era a nova contratada da empresa para o cargo que ela, Belinha, fez de tudo
para pegar, mas que, apesar do currículo excelente e de seus anos de experiência e dedicação, não conseguiu.

Pensou se abdômen definido contaria ponto, mas logo esqueceu a gata, porque no meio de uma reunião ligaram do colégio de Clarinha, sua filha mais nova, dizendo que ela estava com dor de ouvido e febre.

Tentou em vão achar o marido e, como não conseguiu, resolveu ela mesma ir até o colégio, depois do encontro com o novo cliente, que se revelou um chato, neurótico,
desconfiado e com quem teria que lidar nos próximos meses.

Saiu esbaforida e encontrou seu carro com pneu furado. Pensou em tudo que ainda ia ter que fazer antes de fechar os olhos e sonhar com um mundo melhor.

Abandonou a droga do carro avariado, pegou um táxi e as crianças.

Quando chegou em casa, descobriu que tinha deixado a droga da pasta com o relatório que precisava ler para o dia seguinte no escritório! Telefonou para o celular do marido com a esperança que ele pudesse pegar os malditos papéis na empresa, mas a bosta continuava fora de área.

Conseguiu, depois de vários telefonemas, que um motoboy lhe trouxesse os documentos.

Tomou um banho, deu a droga do jantar para as crianças, fez a porcaria dos deveres com os dispersos e botou os monstros para dormir.

Artur chegou fulo de uma reunião em São Paulo, reclamando de tudo. Jantaram em silêncio.

Na cama ela leu metade do relatório e começou a cabecear de sono. Artur a acordou com tesão, a fim de jogo. Como aqueles momentos estava cada vez mais raros no casamento deles, ela resolveu fazer um último esforço de reportagem e transar.

Deram uma meio rápida, meio mais ou menos, e, quando estava quase pegando no sono de novo, sentiu uma apalpadinha no seu traseiro com o seguinte comentário:

- Tá ficando com a bundinha mole, Belinha... deixa de preguiça e começa a se cuidar..

Belinha olhou para o abajur de metal e se imaginou martelando a cabeça de Artur até ver seus miolos espalhados pelo travesseiro!

Depois se viu pulando sobre o tórax dele até quebrar todas as costelas Com um alicate de unha arrancou um a um todos os seus dentes depois deu-lhe um chute tão brutal no saco, que voou espermatozóide para todos os lados!

Em seguida usou a técnica que aprendeu num livro de autoajuda: como controlar as emoções negativas.

Respirou três vezes profundamente, mentalizando a cor azul, e ponderou. Não ia valer a pena, não estamos nos EUA, não conseguiria uma advogada feminista caríssima que fizesse sua defesa alegando que assassinou o marido cega de tensão pré-menstrual...

Resolveu agir com sabedoria.

No dia seguinte, não levou as crianças ao colégio, não fez um supermercado rápido, nem brigou com a empregada. Foi para uma academia e malhou duas horas. De lá foi para o cabeleireiro pintar os cabelos de acaju e as unhas de vermelho. Ligou para o cliente novo insuportável e disse tudo que achava dele, da mulher dele e do projeto dele.

E aguardou os resultados da sua péssima conduta, fazendo uma massagem estética que jura eliminar, em dez sessões, a gordura localizada.

Enquanto se hospedava num spa, ouviu o marido desesperado tentar localiza-lá pelo celular e descobrir por que ela havia sumido. Pacientemente não atendeu. E, como vingança é um prato que se come frio, mandou um recado lacônico para a caixa postal dele...

- A bunda ainda está mole. Só volto quando estiver dura.

Um beijo da preguiçosa...

**ab

Texto: Recebido por e-maio com indicação de que foi rtirado do livro Este Sexo Femenino de Patrícia Travassos.

(Presente de Cleo Dal Prá)